terça-feira, 1 de janeiro de 2013

A Liberdade é Solitária


Agora era sentar e esperar. Estava tudo preparado. No momento certo, algo surpreendente, extraordinário, aconteceria. E aí ele seria arrebatado por uma inspiração extramundana e escreveria o livro que mudaria sua vida. E terminaria de escrever antes do amanhecer.

Estava tudo preparado. Colocara sua escrivaninha na posição adequada, encostada contra a janela. Dali ele via a cidade inteira. Perfeito. Computador ligado, as mãos prontas para digitar. Assim não sofreria daquele mal do escritor: na hora que a inspiração vem, procura-se desesperadamente algo onde guardar a ideia. Não se encontrando, a ideia vai embora e é como se nunca a tivesse tido. Mas não dessa vez. Estava tudo preparado.

Se arrumara todo, apesar de que era absolutamente desnecessário, já que sua mulher havia lhe largado. Mas como se fosse um último ato a obedecê-la, se arrumara do jeito que ela julgaria adequado: aquela camisa branca que ela comprara, com calças igualmente brancas e havaianas novas. Brancas, é claro. Ela era sempre muito insistente sobre essa tradição de se vestir de branco no Ano Novo. Ele sempre reclamava, dizia que era ridículo e ameaçava se vestir de preto. Os filhos achavam graça, mas ela não entendia a brincadeira e ficava brava. Um ano ele argumentou que preto era a cor da liberdade, que se houvesse nesse mundo um ato que fosse realmente libertador seria esse de usar preto na Praia de Copacabana na virada do Ano Novo. Ela nunca percebeu o alcance desse pensamento, que ele achou realmente deslumbrante, um verdadeiro insight, e transformou em um lindo conto chamado “A liberdade é negra”. 

Imaginou a sensação de liberdade que poderia sentir caso vestisse preto na presente ocasião. Semelhante sensação teria se simplesmente não se arrumasse, ficasse de pijama e pronto. Como quem diz: “Agora que você me largou, querida esposa, nunca mais me arrumo para a virada de Ano Novo”. Esses pensamentos passaram pela sua cabeça, mas no final das contas ele quis fazer o contrário, percebeu que não havia nada de anti-libertário em fazer o que ela teria gostado, se agora o que ele queria era justamente voltar a agradá-la. Mas a verdade é que se o visse agora, todo cheiroso, penteado e arrumado como devia, ela ficaria mais brava que feliz. Ele até podia imaginar ela entrando e dizendo: “Por que não o fazia sem reclamar quando éramos casados, desgraçado? Agora trate de colocar a maldita camiseta preta!”. Seria engraçado.

Era realmente ridículo o fato de ele ter se arrumado, afinal ninguém o veria. Dissera para a mãe que estaria com os filhos. Os filhos e a ex-mulher achavam que estaria com os amigos, e os amigos juravam que estaria com a mãe. Todas essas mentiras porque ele precisava ficar sozinho.

E lá estava ele, esperando o momento certo. Da janela de sua casa teria uma bela vista para os fogos, e ele tinha certeza: no momento da virada, quando a cidade ao longe fosse iluminada pelos fogos, sob aqueles sons estrondosos, algo aconteceria dentro de seu ser que o mudaria para sempre. Uma vez, quando criança, tinha tido essa sensação. No momento da virada, o menino sentiu que nunca mais seria o mesmo, e não foi. Nunca mais sentira isso, mas o escritor tinha certeza que era agora que sentiria de novo.

Gostava daquela janela, no sétimo andar de um prédio ordinário de Copacabana. Olhava para fora e sentia o movimento da cidade, mas estava protegido pelas paredes de seu apartamento. Amava a cidade caótica tanto quanto amava a serenidade de seu apartamento.

Ainda eram dez e meia. Tinha que esperar até a meia noite. Ficou ali, bem perto da janela, de onde via e ouvia a cidade se agitando e se preparando para a virada. As festas do vizinho eram sempre muito animadas, e este ano não era diferente. Tocava uma banda de jazz e as pessoas riam. O escritor gostava tanto disso que, apesar de suar em bicas, se recusava em fechar as janelas e ligar o ar-condicionado, pois não queria de jeito nenhum o silêncio. Não se irritava pelo fato de todo o mundo se divertir enquanto ele estava ali sozinho. Estava sinceramente feliz, e talvez liberdade fosse exatamente isso: se dar o direito de não se divertir enquanto todo o mundo o faz por obrigação. Comeu alguma coisa e tomou algumas cervejas, esperando pacientemente a virada. Do ano e de sua vida.

É agora. Como manda a tradição, conta-se os segundos. 10, 9, 8, 7. Até então sereno, agora um nervosismo crescente se apodera do escritor. O que será que vai acontecer quando chegar no zero? Só agora ele percebe que nada garante que a sensação será boa. Pode ser que seja horrível. 6, 5, 4. O escritor prepara as mãos sobre o teclado do computador, e olha atentamente para o horizonte, onde verá os tão esperados fogos. 3, 2, 1.

Zero.

Os fogos começam e a cidade se agita. É gritaria pra todo lado.

Nada. Nadinha. Nem sequer um arrepio, um mal-estar no estômago ou um suor gelado. Nada. Tudo é exatamente como era no segundo anterior. O escritor se desespera. Fica olhando para o computador como se devesse escrever alguma coisa. Qualquer coisa. Olha pra fora e se irrita com o barulho e com os fogos intermináveis. Prometeram quinze minutos de fogos e no quinto minuto já se tornou insuportavelmente maçante. O escritor lembra-se de um livro de Enrique Vila-Matas e escreve “Suicídio Exemplar”. Levanta e se joga da janela. Em direção ao caos e para longe da serenidade. Ou o contrário.

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