Agora era sentar e esperar.
Estava tudo preparado. No momento certo, algo surpreendente, extraordinário,
aconteceria. E aí ele seria arrebatado por uma inspiração extramundana e
escreveria o livro que mudaria sua vida. E terminaria de escrever antes do amanhecer.
Estava tudo preparado. Colocara
sua escrivaninha na posição adequada, encostada contra a janela. Dali ele via a
cidade inteira. Perfeito. Computador ligado, as mãos prontas para digitar.
Assim não sofreria daquele mal do escritor: na hora que a inspiração vem,
procura-se desesperadamente algo onde guardar a ideia. Não se encontrando, a
ideia vai embora e é como se nunca a tivesse tido. Mas não dessa vez. Estava
tudo preparado.
Se arrumara todo, apesar de que
era absolutamente desnecessário, já que sua mulher havia lhe largado. Mas como
se fosse um último ato a obedecê-la, se arrumara do jeito que ela julgaria
adequado: aquela camisa branca que ela comprara, com calças igualmente brancas
e havaianas novas. Brancas, é claro. Ela era sempre muito insistente sobre essa
tradição de se vestir de branco no Ano Novo. Ele sempre reclamava, dizia que
era ridículo e ameaçava se vestir de preto. Os filhos achavam graça, mas ela
não entendia a brincadeira e ficava brava. Um ano ele argumentou que preto era
a cor da liberdade, que se houvesse nesse mundo um ato que fosse realmente
libertador seria esse de usar preto na Praia de Copacabana na virada do Ano
Novo. Ela nunca percebeu o alcance desse pensamento, que ele achou realmente
deslumbrante, um verdadeiro insight, e transformou em um lindo conto chamado “A
liberdade é negra”.
Imaginou a sensação de liberdade que poderia sentir caso
vestisse preto na presente ocasião. Semelhante sensação teria se simplesmente
não se arrumasse, ficasse de pijama e pronto. Como quem diz: “Agora que você me
largou, querida esposa, nunca mais me arrumo para a virada de Ano Novo”. Esses
pensamentos passaram pela sua cabeça, mas no final das contas ele quis fazer o
contrário, percebeu que não havia nada de anti-libertário em fazer o que ela
teria gostado, se agora o que ele queria era justamente voltar a agradá-la. Mas
a verdade é que se o visse agora, todo cheiroso, penteado e arrumado como
devia, ela ficaria mais brava que feliz. Ele até podia imaginar ela entrando e
dizendo: “Por que não o fazia sem reclamar quando éramos casados, desgraçado?
Agora trate de colocar a maldita camiseta preta!”. Seria engraçado.
Era realmente ridículo o fato de
ele ter se arrumado, afinal ninguém o veria. Dissera para a mãe que estaria com
os filhos. Os filhos e a ex-mulher achavam que estaria com os amigos, e os
amigos juravam que estaria com a mãe. Todas essas mentiras porque ele precisava
ficar sozinho.
E lá estava ele, esperando o
momento certo. Da janela de sua casa teria uma bela vista para os fogos, e ele
tinha certeza: no momento da virada, quando a cidade ao longe fosse iluminada
pelos fogos, sob aqueles sons estrondosos, algo aconteceria dentro de seu ser
que o mudaria para sempre. Uma vez, quando criança, tinha tido essa sensação.
No momento da virada, o menino sentiu que nunca mais seria o mesmo, e não foi.
Nunca mais sentira isso, mas o escritor tinha certeza que era agora que
sentiria de novo.
Gostava daquela janela, no sétimo
andar de um prédio ordinário de Copacabana. Olhava para fora e sentia o
movimento da cidade, mas estava protegido pelas paredes de seu apartamento.
Amava a cidade caótica tanto quanto amava a serenidade de seu apartamento.
Ainda eram dez e meia. Tinha que
esperar até a meia noite. Ficou ali, bem perto da janela, de onde via e ouvia a
cidade se agitando e se preparando para a virada. As festas do vizinho eram
sempre muito animadas, e este ano não era diferente. Tocava uma banda de jazz e
as pessoas riam. O escritor gostava tanto disso que, apesar de suar em bicas,
se recusava em fechar as janelas e ligar o ar-condicionado, pois não queria de
jeito nenhum o silêncio. Não se irritava pelo fato de todo o mundo se divertir
enquanto ele estava ali sozinho. Estava sinceramente feliz, e talvez liberdade
fosse exatamente isso: se dar o direito de não se divertir enquanto todo o
mundo o faz por obrigação. Comeu alguma coisa e tomou algumas cervejas, esperando
pacientemente a virada. Do ano e de sua vida.
É agora. Como manda a tradição,
conta-se os segundos. 10, 9, 8, 7. Até então sereno, agora um nervosismo
crescente se apodera do escritor. O que será que vai acontecer quando chegar no
zero? Só agora ele percebe que nada garante que a sensação será boa. Pode ser
que seja horrível. 6, 5, 4. O escritor prepara as mãos sobre o teclado do
computador, e olha atentamente para o horizonte, onde verá os tão esperados
fogos. 3, 2, 1.
Zero.
Os fogos começam e a cidade se
agita. É gritaria pra todo lado.
Nada. Nadinha. Nem sequer um
arrepio, um mal-estar no estômago ou um suor gelado. Nada. Tudo é exatamente
como era no segundo anterior. O escritor se desespera. Fica olhando para o
computador como se devesse escrever alguma coisa. Qualquer coisa. Olha pra fora
e se irrita com o barulho e com os fogos intermináveis. Prometeram quinze
minutos de fogos e no quinto minuto já se tornou insuportavelmente maçante. O
escritor lembra-se de um livro de Enrique Vila-Matas e escreve “Suicídio
Exemplar”. Levanta e se joga da janela. Em direção ao caos e para longe da
serenidade. Ou o contrário.
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