sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Fim


1) Início do Fim

Eu fechei os olhos e disse que te amava. Disse que não podia viver sem você e que nada mais importava, eu faria qualquer coisa por você. Eu que nunca acreditei em me entregar para alguém, que sempre julguei burras essas pessoas que negligenciam sua própria felicidade pela felicidade de um amor. Eu que sempre achei brega chamar alguém de amor.
Abri os olhos e lembrei que afinal de contas eu não dizia isso tudo para você, apenas pensava em voz alta e graças a Deus ninguém escutava as breguices que eu falava.
Quando nos encontramos, te disse para sumir, exteriorizei toda a raiva que sentia. Te expliquei que essa história de eu deixar de viver não podia, que afinal de contas eu sou uma pessoa livre e sempre fui, e que eu me bastava e não pretendia deixar de fazer nada por alguém, muito menos por ti, afinal a gente mal se conhece. Você queria que eu fosse sua e só sua e eu te expliquei que sempre tive um problema sério com essa história de pertencer a alguém.
Você ficou me olhando com esses seus enormes olhos castanhos, você que não fazia a mínima ideia do que afinal eu estava falando e por isso simplesmente não sabia o que dizer. E eu te olhei por alguns segundos esperando que você brigasse por mim, eu que queria que você dissesse uma dessas frases de cinema, me dissesse que faria qualquer coisa só para estar comigo e que até abria mão de ser meu dono.
Mas você não abria mão de ser meu dono porque afinal não entendia porque eu não queria ser sua. Você com todo esse seu romantismo que me irrita e que por alguns segundos – só por alguns segundos – me dá vontade de não olhar pra tua cara nunca mais. Você ficou me encarando exigindo que eu me entregasse, pulasse de cabeça e esquecesse todos os nossos problemas. Outra mania tua que me irrita: você chega com esse teu sorriso maravilhoso como se tudo estivesse sempre muito bom, com se a gente não tivesse discutido na última vez que nos vimos. E aí você diz que nada disso importa porque quando você está comigo você está feliz. E com essa frase você me cobra aquele teu pedido de ser sua. E só pra deixar claro que eu não sou sua, eu não te digo o quanto você me faz feliz.
Me irrita gente que não quer discutir quando eu quero, que fica me encarando com toda a serenidade do mundo enquanto eu quase tenho um surto de tanta raiva que tenho dentro de mim. E enquanto eu tento brigar você fica me encarando com esse lindos olhos e chega ao cúmulo de sorrir pra mim esse sorriso que de tão lindo quase me desestabiliza. E aí você me abraça e envolvida nesses teus braços protetores eu quase me esqueço que afinal de contas não quero que você me proteja, não quero que você cuide de mim.
Mas aí eu lembro que sou livre e quero ser livre e é um absurdo você querer que eu seja sua e achar que eu preciso de você e que sem você eu não vivo. Saio dos teus braços e vou embora. Você me puxa de volta e me pede pra ficar. Eu mando você me soltar e aí parece que você finalmente ficou bravo. Diz que não vai me obrigar a ficar e que se eu quiser ir eu posso ir.
Eu vou.

2) Vida

"A vida é uma eterna busca por equilíbrio."

Com essa frase ela o deixou porque afinal de contas apesar de se gostarem eles não se equilibravam.

E ele ficou lá, naquele que era o parque mais calmo da cidade, encarando o lago e ignorando a cantoria dos passarinhos. E pensando que a vida era uma bosta.

3) Tempo

Quando acordou, ela pensou que tinha sido realmente o fim, afinal já fazia tanto tempo e ele não a procurara. Já fazia tanto tempo... Aí ela fez as contas e só fazia três dias. Parecia mais. Então ela decidiu esquecer que fizera as contas, afinal o tempo é relativo. Na subjetividade do tempo, ela esqueceu o relógio e ficou sentindo o tempo dentro dela. O tempo dentro dela dizia que fazia uma semana, mas não uma semana comum. Era uma dessas semanas que se arrasta e dura uma eternidade.
Era o fim. Fazia uma eternidade que ele não a procurava.
Olhou o relógio e ainda não eram nove horas. Ele podia ligar agora, afinal ele acordava cedo. Mas talvez o telefone não tocasse porque ele sabia que ela acordava tarde. Era isso: ele estava sendo educado, compreensivo, não ligava porque pensava nela. Ou então já tinha esquecido, não pensava nela e também não pensava em ligar. Era o fim.
Quando ele ligou, ela atendeu quase que automaticamente. Ele disse que ligou porque estava com saudade e precisava ouvir sua voz, e que na verdade não achava que ela atenderia. Ela ficou muda, não tinha uma desculpa para ter atendido. Conversaram uma conversa calma. Ela tinha agora uma voz doce e tranquila, diferente de quando terminara com ele. Ela tinha uma voz calma, esquecida por alguns momentos que eles não estavam mais juntos. Perguntou como ele estava, e não foi só por perguntar. Perguntou porque era inevitável querer saber se ele estava bem. Perguntou de seus problemas e prometeu ajudar. Ele se despediu dizendo que já dera para matar a saudade.
Ela desligou e no segundo seguinte percebeu que não dera para ela matar a saudade que sentia. Quase ligou de volta e disse assim: “Eu ainda não matei a saudade, preciso ouvir tua voz por mais tempo”.
Mas não ligou.

4) Fim

Nunca mais se falaram. Ele se casou com uma francesa, ela se mudou para a Espanha.

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