quarta-feira, 6 de março de 2013

Cássio, Luisa e Gustavo


“O Carnaval não é bom para os poetas.”, ele me disse com total convicção. Aliás, era assim tudo o que ele me dizia. Questioná-lo nunca pareceu uma opção para mim. Ele tinha tanta certeza de tudo o que dizia, como se do alto de seus trinta anos já tivesse vivido e experimentado de tudo, e agora não tinha mais dúvidas, apenas certezas absolutas, que compartilhava com suas namoradinhas dez anos mais jovens e sem nenhuma experiência de vida.
Ele era a pessoa mais melancólica que eu já conheci. Quase depressivo, às vezes. Ele dizia que não entendia como eu podia ser tão feliz em um mundo tão injusto. E quando ele dizia isso era como se me culpasse por todos os problemas do planeta, como se cada vez que eu sorrisse uma nova desgraça surgisse.
E depois de três anos de convivência eu ia ficando como ele. Me sentia como se tivesse envelhecido vinte anos. Quando o conheci, aos 19 anos, ele disse que eu era a pessoa mais esperançosa e sorridente do mundo. Mas não era um elogio. “Esperança é a qualidade dos fracos”, disse. Agora, aos 22, sou quase tão triste quanto ele.
Cássio era um artista. Seus poemas eram os mais bonitos, os quadros que pintava eram tão belos que eu podia ficar durante horas admirando-os. Mas era só através da arte que eu o alcançava. Era só através da arte que ele próprio se alcançava. Era impossível entendê-lo por outros meios. E vivíamos assim, angustiados.
Eu queria ser artista. Apenas queria. Pintar eu não sabia, mas me aventurava na escrita e na fotografia. Ele não gostava de nada do que eu fazia.
“O Carnaval não é bom para os poetas.”
Eu fui caminhando de volta para casa com essa verdade encravada no peito. Eu que sempre amara Carnaval tinha descoberto que ele não era bom para mim. Ou pior: gostar de Carnaval significava que eu nunca seria poeta. Teria que tirar isso da cabeça, ganhar dinheiro de outra forma, afinal nada do que eu fazia de arte era bom o suficiente, e tudo isso porque eu ousara gostar de Carnaval.
Passei por um bloco de Carnaval e uma lágrima caiu do meu olho esquerdo. Não sei bem por que. Porque aquela alegria toda já não me alcançava. Porque eu não podia mais gostar de Carnaval. Porque eu amava Carnaval e tinha que fingir que não. Porque eu não era poeta. Por causa disso tudo ou por nada disso.
Pensativa, eu andava indiferente com o que acontecia a minha volta. Levei um esbarrão. Vi os olhos mais bonitos que existiam no mundo. Os olhos ficaram me encarando e aí eu lembrei que estava chorando e fiquei com vergonha. O sujeito sorriu para mim, e seu sorriso era tão belo quanto seus olhos. Fiquei ainda mais sem graça, e para disfarçar, ou por rebeldia, não sorri de volta.
“O que houve?” Ele perguntou e eu achei um absurdo ele me perguntar isso.
“Nada.”
“Nada o que?”
“Não houve nada.”
“Que pena.”
“O que?”
“Não ter havido nada. Na vida alguma coisa tem que acontecer senão a gente morre de solidão.”
E aí ele sumiu na multidão, o que me fez odiá-lo. Como ele podia me dizer uma verdade dessas e ir embora assim? E agora eu iria para casa com duas verdades encravadas no peito.
Olhei em direção ao Bloco tentando encontrá-lo. Pretendia questioná-lo. Como ousará falar uma coisa dessas e ir assim, sem mais nem menos?! Não o encontrei. Mas aí percebi como estava bonito aquele Carnaval. Peguei minha câmera fotográfica.
Em casa percebi que as minhas fotos tinham ficado muito boas. No dia seguinte iria à casa de Cássio só para enfrentá-lo: Tá vendo? O Carnaval que você odeia é ótimo para os artistas! Mas mostrar meu trabalho para ele me deixava tensa, então precisava potencializar o meu olhar crítico e escolher as melhores. Não que fosse fazer diferença, ele não ia gostar mesmo. Na verdade, nem eu mesma conseguia entender porque ainda insistia em mostrar meus trabalhos para ele, se sabia que não havia meio de agradá-lo. Mas é que eu ainda queria a sua aprovação, como se ele fosse um mentor para mim, mesmo que ele não o quisesse ser. Mesmo que eu não quisesse que ele fosse. Eu simplesmente não conseguia evitar.
Foi assim, olhando com mais cuidado as fotos, que eu o encontrei. O menino dos olhos e sorriso bonitos. O menino da pergunta inconveniente e do comentário abusado. Ele olhava para a câmera com um meio-sorriso.
Cheguei à casa de Cássio decidida a convencê-lo de que o Carnaval era belo. Chequei à casa de Cássio decidida a convencê-lo de que eu era uma artista de verdade. Ele deixava a porta sempre destrancada, como quem diz que sabia que eu o procuraria. E era verdade. Fui entrando apressadamente, com as fotografias na mão. Não guardara em envelope ou na bolsa, para não correr o risco de desistir de mostrá-las.
Dei de cara com ele, o menino dos olhos e sorriso bonitos, da pergunta inconveniente e do comentário abusado. Acho que fiquei vermelha.
“O que é isso na tua mão?”, perguntou com o mesmo sorriso irritante do dia anterior.
Congelei. Graças a Deus, Cássio apareceu, evitando que a situação ficasse ainda mais constrangedora.
“Oi.” Disse da forma seca de sempre, talvez ainda mais seco por causa da presença de uma terceira pessoa. Fazia questão de demonstrar o seu desprezo por mim.
“Gustavo, essa é a Luisa.”
Só isso. Não explicou quem eu era ou o que eu fazia ali. Não que eu esperasse que ele me apresentasse como sua namorada ou algo do tipo. Até porque esse título era só uma convenção social utilizada por pessoas que transformavam até o amor em posse. Eu aprendera isso com Cássio.
Naquele momento, ali na frente do Gustavo, eu até que gostava de não ser a namorada de alguém. O que me incomodou naquela apresentação curta foi que fiquei pensando que talvez eles já tivessem conversado sobre mim. Cássio já falara que eu era uma menina insegura de vinte e poucos anos que não entendia nada de arte nem de coisa alguma. Fiquei com vontade de sumir.
Cássio já tinha entrado na quarto. Ficamos de novo apenas eu e Gustavo. “Gustavo”. Era um nome bem mais bonito do que “Cássio”. Cássio era bruto e jogava na tua cara que era único, diferente e muito melhor do que você. Gustavo era doce e suave sem deixar de ser forte e corajoso. A primeira vista parecia banal, mas era só um disfarce, humildade de quem não precisa mostrar logo de cara quem é. Prefere o mistério. Mas falo dos nomes.
“Oi, Lu!”. Com um sorriso tão largo no rosto que quase parecia falso.
Lu? Fazia séculos que ninguém me chamava assim. Percebendo meu desconforto, perguntou: “Posso te chamar de Lu?” Eu não sabia o que responder. Por um lado, era um abuso tamanha intimidade. Por outro, me derretera toda com o apelido.
Não disse nada, e pensei que ele devia estar me achando uma chata, eu quase não abria a boca.
“Eu sou o Gustavo.” Pensei que essa frase era a prova de que ele não estava gostando de mim. Afinal Cássio já tinha falado o seu nome, não precisava repetir, repetia só porque a gente não tinha assunto.
Será que ele tinha me reconhecido do dia anterior? Será que eu devia perguntar? Aí aproveitava e falava que aquele comentário sobre a solidão tinha me aborrecido.
“Mas pode me chamar de Guto. Todo mundo me chama assim, só o Cássio que não, porque ele é muito chato e sério.”
Aí eu sorri sem perceber, acho até que eu ri. Para ele, acho que foi um alívio perceber que eu estava ficando mais a vontade. Ele riu também.
“O que é isso na sua mão?”
“Não é nada.”
“Que pena.” Droga, ele se lembra de mim, está me provocando.
“É uma pena mesmo. Na vida alguma coisa tem que acontecer senão a gente morre de solidão.”
“Então você lembra...”
Ele sorriu de novo. Olhou bem no fundo dos meus olhos e eu acho que fiquei vermelha de novo. Será que ele sabia que eu e o Cássio estávamos juntos? Bom, na verdade nem eu sabia ao certo se eu e o Cássio estávamos juntos.
Cássio voltou e perguntou:
“O que é isso?”
“Não é nad...” Já tinha arrancado da minha mão.
“Carnaval.” Ele disse com tom de desprezo. Tacou as fotos na mesa e algumas caíram no chão. Saiu da sala de novo. Não fazia questão da companhia de ninguém, muito menos da minha.
Gustavo as pegou. Sentou e as olhou com calma, em silêncio. Eu não sabia o que fazer. Queria desaparecer. Será que ele já tinha visto aquela na qual ele aparecia? Depois de ver todas, as juntou com muita calma e me devolveu.
“São muito boas.”
Eu fiquei muito sem jeito. Todos esses anos esperando que Cássio elogiasse meu trabalho, e agora não sabia lidar com um elogio.
“Obrigada.”
“Cássio não me contou que você era fotógrafa.”
Então eles tinham conversado sobre mim...
“Eu também gosto muito do Carnaval.”
“Eu sei, vi você pulando Carnaval ontem.”
“Ah é, você viu.” Riu meio sem jeito, virando o rosto para disfarçar. Só agora percebia que ele estava tão sem jeito quanto eu. Achei bonitinho.
Cássio nunca ficava sem jeito, não na minha frente.
“Eu escrevi uma crônica sobre ontem.”
“Então você escreve...”
“Sim, acho que sim.”
“Posso ler?”
Pegou na mochila um caderno, abriu na página da crônica e me deu. Eu sentei para ler e de vez em quando olhava para ele, que estava tão sem graça quanto eu quando ele analisou minhas fotos.
Era sobre uma menina que amava tanto o Carnaval que até chorou de alegria. A alegria da menina era tanta que nem cabia no mundo. Tinha gente que não gostava dela só porque ela era feliz demais. Sem saber como se expressar, ela chorou.

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