I – Belas
loucuras
“Estou na lua.”
No final da
vida, naquela cama de hospital, meu pai começava a falar loucuras. Mas eram
sempre loucuras belas.
“O que disse,
papai?”
Ele me encarou
com aqueles olhos que não demonstravam fraquezas. Não importava o quão fraco o
seu corpo estivesse, meu pai mantinha aquele olhar profundo e forte.
Esse olhar reprendedor
eu conhecia bem. Meu pai não era do tipo que repetia uma frase. Ou você estava
ouvindo-o, ou não estava, e nesse caso simplesmente não merecia que ele
perdesse tempo contigo. Não sei se ele era assim porque era professor, ou
apesar disso. Meu pai era conhecido por seus alunos pela sua firmeza, não era
fácil agradá-lo, muito menos impressioná-lo. Por outro lado, todos os alunos
pareciam amá-lo e admirá-lo. Não subestimava ninguém. Em casa, com os cinco
filhos, não era diferente.
Diante do olhar,
mudei a pergunta:
“E como é aí?”
“Um homem em sua
solidão parece triste mas está feliz.”
“Como isso é
possível?”
“Como eu vou
saber?!”
– Respondeu indignado, com raiva.
Eu sorri para
ele, porque adorava ver que ele continuava forte, questionador, rabugento como
sempre.
Ele então deu uma
gargalhada. Foi uma gargalhada sincera, sei disso pelo brilho nos seus olhos
que parecia não fazer sentido diante da fraqueza de seu corpo. A loucura
parecia potencializar as mudanças repentinas de humor que sempre foram
características de meu pai.
Eu ri com ele e
então fomos tomados por um ataque de riso contagiante. Tão contagiante que pude
ouvir as enfermeiras no corredor rindo compulsivamente também. Tão contagiante
que cheguei a ficar sem ar e meus olhos se encheram d’água.
Eu ainda estava
rindo quando meu pai ficou sério de novo.
“A borboleta
azul é a rainha da lua.” – disse com uma expressão pacífica no rosto.
Eu fiquei sério.
“A liberdade
acomete o espírito quando assim deve ser.”
“O quê quer
dizer com isso, papai?”
“Não sou eu quem
está dizendo, é ela.”
“Ela quem?”
“A borboleta
azul!” – respondeu com muita raiva da minha incapacidade de acompanhar seu
raciocínio.
Mas logo em
seguida ficou muito calmo, nunca o tinha visto tão calmo assim. Alguns minutos
depois, disse:
“Agora eu vou
dormir um pouco, tá bom? Me acorde na outra vida.”
Ele dormiu e não
acordou mais nessa vida.
II –Belas
loucuras contagiosas
Avisei as
enfermeiras no corredor que ele havia ido, e voltei a me sentar do lado da
cama. Senti uma mão encostar em meu ombro e me virei achando que era a
enfermeira. Mas era o meu pai, muitos anos mais novo, com aquele mesmo olhar
forte e profundo. No momento em que a enfermeira cobriu seu corpo com o lençol, ele se
foi. Sem pedir permissão eu descobri o rosto de meu pai. Em sua solidão, ele parecia
triste mas estava feliz.
Só então percebi
que a enfermeira ainda não havia se livrado do ataque de riso. Muito
envergonhada, ela tentava inutilmente segurar o riso. Eu então comecei a rir
escandalosamente. Ela não entendeu nada, arregalou os olhos e pareceu realmente
assustada. Deve ter pensado que era o choque da perda, ou então deve ter pensado
que a loucura tinha passado do pai para o filho. Saiu do quarto o mais rápido
que pôde, deve ter ficado com medo da loucura passar pra ela.
Algumas horas
depois a mesma enfermeira veio me encontrar na cantina. Evitando ao máximo
encarar meus olhos, me entregou uma caixa. “São os pertences do seu pai.” E
saiu antes que desse tempo de eu responder qualquer coisa. Tinha medo que eu
começasse a rir de novo, creio.
III –A Caixa
Na viagem de
volta pra casa, sentado na janela do ônibus, segui com a caixa em meu colo, sem
abri-la. Quem me olhava não podia dizer que eu acabara de perder meu pai,
tamanha era a minha serenidade. Ia com o rosto grudado na janela, olhando as
luzes e ouvindo os barulhos da cidade. O trânsito era infernal e eu até esqueci
da caixa e de meu pai, estava distraído com as pessoas na rua. O trânsito não
me incomodava, sentia que podia ficar pra sempre naquela janela de ônibus, e
assim fugia da caixa e do mundo.
Mas então
cheguei em meu ponto de ônibus. Saltei e andei o mais devagar que pude até meu
apartamento. Morava no quinto andar mas dessa vez preferi subir as escadas.
Tentava retardar ao máximo possível chegar em casa, simplesmente porque não
saberia o que fazer quando chegasse.
Entrei no
apartamento, acendi as luzes e a casa estava maravilhosamente arrumada. Hoje
tinha sido dia da faxineira, lembrei. Eu não gostava do dia da faxineira porque
me sentia desconfortável em minha própria casa. Sabia que estava sujo da rua e
sentia que minha presença ali estava em desacordo com a harmonia e o silêncio
daquela casa meticulosamente arrumada e limpa. Nesse dia meu desconforto era
ainda maior porque levava aquela maldita caixa. Onde colocá-la?
Onde quer que a colocasse, ela destruiria qualquer harmonia. Coloquei em cima
da mesinha de centro. A olhei por alguns segundos e decidi que precisava de um
banho. Tomei meu banho e me arrumei muito atento a cada movimento meu, sem
deixar nada fora de lugar. Era sempre assim no dia da faxineira: tentava
inutilmente fazer com que a arrumação durasse os quinze dias até a sua volta.
Fiz tudo isso
sem me esquecer da caixa, sabia que ela me aguardava.
Voltei à sala e
me sentei no chão, com as costas encostadas no sofá e os cotovelos apoiados na
mesinha. Encarei a caixa, ela me encarou de volta.
Não sei quanto
tempo ficamos assim, eu dizendo pra ela que só a abriria quando quisesse, ela
gritando em silêncio que eu não poderia ignorá-la para sempre.
De repente eu
lembrei que não tinha falado nada desde a morte de meu pai. Quer dizer, não
tinha falado nada desde que avisara as enfermeiras da morte de meu pai. O único
som que emitira fora aquele ataque de riso ridículo diante da enfermeira. “Eu
realmente devo ter parecido um louco”, pensei. “Coitada, em seu lugar eu também
fugiria de mim.”
De um jeito que
não posso explicar ou compreender, a serenidade se foi e no instante seguinte
eu agarrei a caixa e fui gritando com todo o som que tinha dentro de mim e fui
correndo com todas as pernas que me restavam até a janela. A abri e ameacei
tacar a maldita caixa na rua. Ao invés disso fiquei com ela na mão levantada e
continuei berrando, mas ninguém escutava porque os sons da cidade eram mais altos. Cena patética. Ainda bem que a cidade lá embaixo não dava a
mínima. Ainda bem que a enfermeira não estava lá.
De repente
lembrei que não tinha chorado desde a morte de meu pai. Mas não, não vou ter um
ataque de choro, seria a terceira cena patética do dia.
Ao invés disso,
de um jeito que não posso explicar ou compreender, a serenidade voltou.
Coloquei a caixa de volta na mesa e sentei novamente no mesmo lugar de antes.
Abri a caixa.
IV – Os
pertences de meu pai
Abri a caixa.
De dentro dela
saiu uma minúscula borboleta azul.
Ela pousou na
mesinha, do lado da caixa, de frente pra mim. Ficamos nos encarando, eu dizendo
que aquilo não era possível e ela afirmando que existia.
Senti fome,
levantei e fui para a cozinha. De repente notei que a borboleta também tinha
vindo. Ela ficou assim, me seguindo, enquanto eu preparava um lanche com um
cuidado inútil para não sujar a cozinha. Comi meio esquecido da borboleta, quando
me dei conta percebi que ela estava na pia, totalmente imóvel. “Morreu”,
pensei. A peguei e joguei na lata de lixo. Mas então ela saiu voando para a
sala, corri atrás e vi quando ela se foi pela janela que eu havia deixado
aberta. Corri até lá e olhei para baixo numa tentativa inútil de localizá-la,
pois ela já havia se perdido entre as luzes da cidade.
“Em seu lugar eu
também fugiria de mim”, falei em voz alta.
Alice, que texto lindo! Contagiante mesmo são suas palavras. Gostei bastante. Beijo!
ResponderExcluirobrigada Fernanda :)
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