terça-feira, 11 de setembro de 2012

A Caixa e o Mundo


I – Belas loucuras

“Estou na lua.”
No final da vida, naquela cama de hospital, meu pai começava a falar loucuras. Mas eram sempre loucuras belas.
“O que disse, papai?”
Ele me encarou com aqueles olhos que não demonstravam fraquezas. Não importava o quão fraco o seu corpo estivesse, meu pai mantinha aquele olhar profundo e forte.
Esse olhar reprendedor eu conhecia bem. Meu pai não era do tipo que repetia uma frase. Ou você estava ouvindo-o, ou não estava, e nesse caso simplesmente não merecia que ele perdesse tempo contigo. Não sei se ele era assim porque era professor, ou apesar disso. Meu pai era conhecido por seus alunos pela sua firmeza, não era fácil agradá-lo, muito menos impressioná-lo. Por outro lado, todos os alunos pareciam amá-lo e admirá-lo. Não subestimava ninguém. Em casa, com os cinco filhos, não era diferente.
Diante do olhar, mudei a pergunta:
“E como é aí?”
“Um homem em sua solidão parece triste mas está feliz.”
“Como isso é possível?”
“Como eu vou saber?!” – Respondeu indignado, com raiva.
Eu sorri para ele, porque adorava ver que ele continuava forte, questionador, rabugento como sempre.
Ele então deu uma gargalhada. Foi uma gargalhada sincera, sei disso pelo brilho nos seus olhos que parecia não fazer sentido diante da fraqueza de seu corpo. A loucura parecia potencializar as mudanças repentinas de humor que sempre foram características de meu pai.
Eu ri com ele e então fomos tomados por um ataque de riso contagiante. Tão contagiante que pude ouvir as enfermeiras no corredor rindo compulsivamente também. Tão contagiante que cheguei a ficar sem ar e meus olhos se encheram d’água.
Eu ainda estava rindo quando meu pai ficou sério de novo.
“A borboleta azul é a rainha da lua.” – disse com uma expressão pacífica no rosto.
Eu fiquei sério.
“A liberdade acomete o espírito quando assim deve ser.”
“O quê quer dizer com isso, papai?”
“Não sou eu quem está dizendo, é ela.”
“Ela quem?”
“A borboleta azul!” – respondeu com muita raiva da minha incapacidade de acompanhar seu raciocínio.
Mas logo em seguida ficou muito calmo, nunca o tinha visto tão calmo assim. Alguns minutos depois, disse:
“Agora eu vou dormir um pouco, tá bom? Me acorde na outra vida.”
Ele dormiu e não acordou mais nessa vida.

II –Belas loucuras contagiosas

Avisei as enfermeiras no corredor que ele havia ido, e voltei a me sentar do lado da cama. Senti uma mão encostar em meu ombro e me virei achando que era a enfermeira. Mas era o meu pai, muitos anos mais novo, com aquele mesmo olhar forte e profundo. No momento em que a enfermeira cobriu seu corpo com o lençol, ele se foi. Sem pedir permissão eu descobri o rosto de meu pai. Em sua solidão, ele parecia triste mas estava feliz.
Só então percebi que a enfermeira ainda não havia se livrado do ataque de riso. Muito envergonhada, ela tentava inutilmente segurar o riso. Eu então comecei a rir escandalosamente. Ela não entendeu nada, arregalou os olhos e pareceu realmente assustada. Deve ter pensado que era o choque da perda, ou então deve ter pensado que a loucura tinha passado do pai para o filho. Saiu do quarto o mais rápido que pôde, deve ter ficado com medo da loucura passar pra ela.
Algumas horas depois a mesma enfermeira veio me encontrar na cantina. Evitando ao máximo encarar meus olhos, me entregou uma caixa. “São os pertences do seu pai.” E saiu antes que desse tempo de eu responder qualquer coisa. Tinha medo que eu começasse a rir de novo, creio.

III –A Caixa

Na viagem de volta pra casa, sentado na janela do ônibus, segui com a caixa em meu colo, sem abri-la. Quem me olhava não podia dizer que eu acabara de perder meu pai, tamanha era a minha serenidade. Ia com o rosto grudado na janela, olhando as luzes e ouvindo os barulhos da cidade. O trânsito era infernal e eu até esqueci da caixa e de meu pai, estava distraído com as pessoas na rua. O trânsito não me incomodava, sentia que podia ficar pra sempre naquela janela de ônibus, e assim fugia da caixa e do mundo.
Mas então cheguei em meu ponto de ônibus. Saltei e andei o mais devagar que pude até meu apartamento. Morava no quinto andar mas dessa vez preferi subir as escadas. Tentava retardar ao máximo possível chegar em casa, simplesmente porque não saberia o que fazer quando chegasse.
Entrei no apartamento, acendi as luzes e a casa estava maravilhosamente arrumada. Hoje tinha sido dia da faxineira, lembrei. Eu não gostava do dia da faxineira porque me sentia desconfortável em minha própria casa. Sabia que estava sujo da rua e sentia que minha presença ali estava em desacordo com a harmonia e o silêncio daquela casa meticulosamente arrumada e limpa. Nesse dia meu desconforto era ainda maior porque levava aquela maldita caixa. Onde colocá-la? Onde quer que a colocasse, ela destruiria qualquer harmonia. Coloquei em cima da mesinha de centro. A olhei por alguns segundos e decidi que precisava de um banho. Tomei meu banho e me arrumei muito atento a cada movimento meu, sem deixar nada fora de lugar. Era sempre assim no dia da faxineira: tentava inutilmente fazer com que a arrumação durasse os quinze dias até a sua volta.
Fiz tudo isso sem me esquecer da caixa, sabia que ela me aguardava.
Voltei à sala e me sentei no chão, com as costas encostadas no sofá e os cotovelos apoiados na mesinha. Encarei a caixa, ela me encarou de volta.
Não sei quanto tempo ficamos assim, eu dizendo pra ela que só a abriria quando quisesse, ela gritando em silêncio que eu não poderia ignorá-la para sempre.
De repente eu lembrei que não tinha falado nada desde a morte de meu pai. Quer dizer, não tinha falado nada desde que avisara as enfermeiras da morte de meu pai. O único som que emitira fora aquele ataque de riso ridículo diante da enfermeira. “Eu realmente devo ter parecido um louco”, pensei. “Coitada, em seu lugar eu também fugiria de mim.”
De um jeito que não posso explicar ou compreender, a serenidade se foi e no instante seguinte eu agarrei a caixa e fui gritando com todo o som que tinha dentro de mim e fui correndo com todas as pernas que me restavam até a janela. A abri e ameacei tacar a maldita caixa na rua. Ao invés disso fiquei com ela na mão levantada e continuei berrando, mas ninguém escutava porque os sons da cidade eram mais altos. Cena patética. Ainda bem que a cidade lá embaixo não dava a mínima. Ainda bem que a enfermeira não estava lá.
De repente lembrei que não tinha chorado desde a morte de meu pai. Mas não, não vou ter um ataque de choro, seria a terceira cena patética do dia.
Ao invés disso, de um jeito que não posso explicar ou compreender, a serenidade voltou. Coloquei a caixa de volta na mesa e sentei novamente no mesmo lugar de antes.
Abri a caixa.

IV – Os pertences de meu pai

Abri a caixa.
De dentro dela saiu uma minúscula borboleta azul.
Ela pousou na mesinha, do lado da caixa, de frente pra mim. Ficamos nos encarando, eu dizendo que aquilo não era possível e ela afirmando que existia.
Senti fome, levantei e fui para a cozinha. De repente notei que a borboleta também tinha vindo. Ela ficou assim, me seguindo, enquanto eu preparava um lanche com um cuidado inútil para não sujar a cozinha. Comi meio esquecido da borboleta, quando me dei conta percebi que ela estava na pia, totalmente imóvel. “Morreu”, pensei. A peguei e joguei na lata de lixo. Mas então ela saiu voando para a sala, corri atrás e vi quando ela se foi pela janela que eu havia deixado aberta. Corri até lá e olhei para baixo numa tentativa inútil de localizá-la, pois ela já havia se perdido entre as luzes da cidade.
“Em seu lugar eu também fugiria de mim”, falei em voz alta. 

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