domingo, 29 de janeiro de 2017
Pegou sua moto e saiu pela estrada. A cada curva, um pensamento. Lembrou de 20 anos antes, quando andar de moto tinha outro sentido. Agora, nao era mais sobre poder, força, aventura. Agora era sobre liberdade, paz, calmaria. Enquanto estivesse na estrada, nao precisaria falar com ninguém. Ninguém perguntaria como ele estava, ninguém diria que ia ficar tudo bem. Ninguém tentaria lhe dizer como lidar com a situação. Era só o vento na cara, que, se não conseguia trazer felicidade, pelo menos não deixaria que se afundasse no poço. Lembrou do paciente do dia anterior. Lembrou da guerra. Lembrou de cada vida que chegava em suas mãos. Lembrou das que salvou e das que perdeu. Cada vida, só mais um nome. Lhe cobravam frieza. Mas a cada nome, imaginava toda uma história de vida. Talvez tivesse escolhido a profissão errada. Escurecia, parou em um hotel para descansar. Gostava de viajar sozinho e não ter que falar com ninguém. No jantar, tentaram puxar assunto. "Pra onde está indo? O que vai fazer por lá?". " Pra capital. Negócios". Se falasse a verdade, viriam mais perguntas. No dia seguinte, mais curvas, mais pensamentos. Uma hora, teria que trocar as curvas da estrada pelas curvas da vida. Mas adiaria essa troca por mais alguns dias. Na estrada, ninguém lhe fazia perguntas. Nao tinha que decidir nada. Nao precisava ter as respostas.
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