quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Dedicatória


Querida,

Aqui vai a dedicatória do livro que estou  te dando de Natal. Eu sei, eu sei... O certo é  a dedicatória vir ali na primeira página do livro, para que qualquer um que abra veja logo os meus garranchos e saiba que sou eu quem o está te dando. Confesso que é mesmo bonito, até meio poético, eu diria, pensar que daqui a vários anos nossos netos encontrariam o livro empoeirado, dentre outras poeiras, e se emocionariam ao ler a dedicatória. Ou pensar que daqui a alguns anos nós mesmos nos encarregaríamos de deixar esse livro em algum sebo empoeirado do centro, em um desses surtos de generosidade que nos dão às vezes e que nos fazem querer desfazermos-nos daquilo que não mais utilizamos. Neste mesmo sebo, um dia, alguém abriria o livro, não por querer comprá-lo, mas apenas por essa vontade arrebatadora que nos dá  dentro de um sebo de abrir um livro aleatoriamente (claro que estou falando num desses sebos verídicos, desarrumado, sem lógica, cujos livros são de fato velhos e muitas das vezes desinteressantes; falo dos sebos divertidos). A pessoa então sorriria ao ler a dedicatória, e talvez até puxasse quem quer que tivesse levado consigo ao sebo para comentar o seu conteúdo (da dedicatória, digo, não do livro).

Tudo isso seria de fato muito bom. Mas eis que não só de momentos poéticos se faz a vida. Ela se faz muito mais por inconvenientes, cuja força se sobrepõe sempre à poesia. E os inconvenientes no presente caso, todos de ordem prática, não são pequenos: 1) ninguém entenderia os meus garranchos, de forma que tanto os nossos netos quanto os indivíduos do sebo estariam logo tentados a jogar o livro pro lado, desmerecendo a dedicatória; 2) percebi logo que o espaço que teria no livro seria pouco praquilo que quero falar, seja porque tenho muito a dizer, seja porque, como você sempre diz, eu sou um cara prolixo. O fato é que no livro eu poderia dizer no máximo um “com carinho” somado a um “eu te amo” pouco convincente. Sim, porque eu preciso mesmo explicar o porquê do “eu te amo”, e talvez a minha prolixidade seja justamente essa minha necessidade de ser verdadeiro e não um clichê ambulante; e 3) possivelmente o inconveniente mais importante: eu teria mesmo vergonha de deixar o que quero dizer ali escancarado. Então que fique só aqui entre a gente... E que você guarde com carinho essa folha que estou chamando de dedicatória, talvez naquela tua caixa que você não me deixa mexer, por serem recordações suas e apenas suas. Seria uma honra finalmente entrar nessa tua caixa, na qual acredito que já estejam muitos ex-namorados, e quem sabe não seja aí que um dia nossos netos vão encontrar a tal da dedicatória? Aí então a poesia venceria os inconvenientes, mas isso só o tempo vai dizer.

Bom, que comece então a dedicatória, que na verdade não é bem uma dedicatória, mas um agradecimento... Não, um agradecimento não, um desabafo...

É que eu preciso te dizer que você é meu chão. Sim, meu chão. Eu sei, eu sei... Isso soa extremamente clichê, meloso. E afinal de contas você sempre me diz que odeia quando sou meloso demais. Mas no fundo, no fundo, você não deve odiar, porque eu sou de fato meloso e você nunca me dispensou por conta disso. Na verdade você bem que gosta, tenta disfarçar o sorriso, mas nunca me enganou. Sim, eu sou meloso, e sim, você gosta disso.

Mas nada disso importa agora, o que é mesmo importante é que você é meu chão. Entende o que eu quero dizer? Eu estou dizendo que você é meu equilíbrio.  Amar é mesmo horrível: antes de te amar é que eu era mesmo feliz! Sim, porque eu não dependia de ninguém. Agora você é como o ar pra mim. Quando você sai eu não respiro.








Querida,

Te amo tanto que preciso de você do meu lado, sempre.


3 comentários:

  1. Que lindo!!! Me emocionou! Está escrevendo cada dia melhor!

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  2. Ah, na verdade esse texto é "velho", tava perdido aqui no computador. ;P

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  3. Li, você se superou! Não só na ideia de escrever um texto como "dedicatória" mas também no texto em si

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