terça-feira, 7 de julho de 2009

Menino de Rua

Caminho pela rua. Sem camisa e sem nada nos pés; trajado apenas com uma bermuda suja. Mas nada disso mais é problema para mim. O chão quente e as pedras soltas em meu caminho não machucam mais meus pés. Eles estão acostumados. Não sentem nada, parecem feitos de pedra.
Sento no chão. As pessoas passam por mim, e ninguém me nota. As lágrimas começam a escorrer. Ainda assim ninguém me nota. O que devo fazer para ser notado? Talvez eu já o tenha sido. Talvez simplesmente as pessoas finjam não me ver, para não se sentirem culpados.
Jogam-me uma moeda. Trata-se de uma senhora que acabou de sair da igreja em frente. Compra assim o seu lugar no céu. Até isso se compra. Não tenho dinheiro para comprar um lugar no paraíso. Vou para o inferno, portanto. Mas o inferno já é aqui.
Não deu tempo de agradecer à senhora, porque ela já se foi. As moedas foram boas, deu para comprar um salgado. Sacio assim a fome de alguns dias. Quando a fome se tornar insuportável novamente, Deus queira que outra alma queira garantir seu lugar no céu.
Na praça, encontro outro menino de rua. Dou-lhe o que restou do salgado, mas não por querer ir para o céu – já estou acostumado com o inferno – apenas por reconhecer em seu rosto a expressão de quem está no limite da fome. Aquele que já chegou no limite da fome sabe reconhecer essa expressão.
Quando termina de comer, o menino sorri para mim, e eu sorrio de volta. Não é sorriso de felicidade, apenas de satisfação, por termos comido alguma coisa. Quem nada tem se contenta com pouco.
Vemos uma menina bonita no outro lado da rua. Ela usa roupas de marca e fala em um celular. “Já pensou em quantos dias de comida garantiríamos se roubássemos a bolsa dela?” É isso que se passa em minha cabeça e na do menino.
Mas nós fomos pegos. Enquanto somos carregados pelos policiais, escuto alguém dizer que o mundo está muito perigoso, que não se pode mais andar na rua sem medo de ser assaltado por “esses pivetes”. Um senhor comenta que a espécie humana está perdida, que ninguém mais tem respeito pelo que é dos outros.
A espécie humana está perdida. Ninguém respeita o que é dos outros; não respeitaram o meu direito de viver, de comer, de estudar, de brincar.

Um comentário:

  1. Amei, amei, amei!
    E até chorei...

    Doida pra ver seus próximos textos...

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